Interpretação de Música – Eu Sou Egoísta, de Raul Seixas

Eu estou atravessando uma jornada interessante de aquisição de conhecimento. Muita gente me pergunta por que ainda não escrevi o primeiro livro. A resposta é simples, porque ainda preciso concluir a jornada. Como eu disse antes, livro – e outras formas de ficção – são garrafas jogadas ao mar por aqueles que atravessaram a morte e renasceram. Basicamente eu estou atravessando a morte. Escrevi esse pequeno texto para compreender melhor o conceito da Psique humana segundo a Psicanálise. Além disso, entender o motivo pelo qual a música Eu Sou Egoísta, de Raul Seixas, causou um verdadeiro alvoroço na minha cabeça no começo dessa semana. Eu estava ouvindo O Baú do Raul e essa música estava na voz da Pitty. Geralmente eu sou tão distraído que nem escuto bem a letra, mas essa eu escutei várias vezes.

“Eu sou Egoísta”. Por que ele diz isso? Por que nas estrofes finais separa “Ego” de “Ísta”? Qual é o sentido de “Por que não” que aparece no final? Essas perguntas me deixaram maluco. A entrevista de Joseph Campbell que assisti anteontem e alguns textos de Freud que li hoje me ajudaram a responder essa pergunta… e muitas outras que estavam matutando aqui.

Basicamente a música é um ensaio sobre o Id, o Ego e o Superego representado na palavra “Egoísta” ou “Ego Ísta” do título e do final. O Eu Lírico fala ao ouvinte que tem a Psique problemática, a pressão no Ego e complexos mal resolvidos da infância que causam sofrimento. As estrofes que o Eu Lírico fala de si mesmo rebatem o comportamento problemático através de uma imagem ideal de equilíbrio entre Id, Ego e Superego.

EU SOU EGOÍSTA

Raul Seixas

Se você acha que tem pouca sorte
Se lhe preocupa a doença ou a morte
Se você sente receio do inferno
Do fogo eterno, de deus, do mal

As ideias de preocupação e receio remetem à ansiedade. Uma ansiedade relacionada ao inferno i.e. ao mal. Sendo que o mal é símbolo do comportamento do Id, de satisfação imediata reprimida e problemática. (Usado de forma alegórica em mutias mitologias).

Eu sou estrela no abismo do espaço
O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço
Onde eu tô não há bicho-papão
Eu vou sempre avante no nada infinito
Flamejando meu rock, o meu grito
Minha espada é a guitarra na mão

O Eu Lírico é uma “estrela”: uma figura divina que emana luz como um Deus. Um com poder de criar e destruir, de amplitude quase infinita. O que eu quero é o que eu penso e faço, dispõe três ações distintas do comportamento: Querer = Id, o instinto animal de impulso e satisfação; pensar = Superego, uma figura civilizada e racional que vive conforme restritas leis sociais; fazer = Ego, é o Eu que equilibra o impulso criativo (libido) às restrições do Superego, equilibrando e permitindo o indivíduo seguir sua profissão/paixão/Bliss.

Se o que você quer em sua vida é só paz
Muitas doçuras, seu nome em cartaz
E fica arretado se o açúcar demora
E você chora, cê reza, cê pede… implora…

Esta é a imagem de uma pessoa presa ao Id, o comportamento infantil, como na sentença “Você chora, reza, pede, implora”. É uma criança interior que não se encaixa no mundo e por isso provoca grande pressão no Ego. Surgem pois uma série de mecanismos de defesa, idealização da vida pela busca da “paz plena”, a busca eterna da doçura, a fantasia como defesa, “seu nome em cartaz”.

Enquanto eu provo sempre o vinagre e o vinho
Eu quero é ter tentação no caminho
Pois o homem é o exercício que faz
Eu sei… sei que o mais puro gosto do mel
É apenas defeito do fel
E que a guerra é produto da paz

Esta é a ideia de uma aceitação da dualidade da vida. Ao invés de separar o bem e o mal, o amargo e o doce, a guerra e a paz, ele une os dois e encontra um equilíbrio. Lembra o próprio conceito de Deus. No trecho Eu quero é ter tentação no caminho ele relembra a imagem da tentação no Monomito. Nos mitos, a tentação é uma série de impulsos animalescos do Id (avareza, luxuria, vícios, violência, birra, cobiça, etc) que foram superados pelo Ego. 

O que eu como a prato pleno
Bem pode ser o seu veneno
Mas como vai você saber… sem tentar?

O que o Eu Lírico come? Isso é uma coisa simples, pode ser definida de várias maneiras. Ele come a fagulha divina, a chama que o diferencia de qualquer outra criatura. Com isso o Eu Lírico é capaz de resolver os impulsos do Id de forma natural. Essa fagulha tem vários nomes, sendo Deus um dos mais comuns. De fato, para o Eu Lírico já em equilíbrio, o Deus é um alimento a “prato pleno”, enquanto para o homem incompleto, Deus é o veneno. Porque literalmente Deus vai matar o indivíduo em desequilíbrio. O indivíduo vai renascer. Já não é mais uma criança, agora é um adulto. Sem questões mal resolvidas na infância (Complexo de Édipo/Electra).

Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou antissocialista
Eu admito, você tá na pista
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou ista, eu sou ego
Eu sou egoísta, eu sou,
Eu sou egoísta, eu sou,
Por que não…

O Eu Lírico prevê que o interlocutor está com raiva e racionalizando suas palavras. Quando o interlocutor chama o Eu Lírico de fascista, simplista, antissocialista, ele está numa atitude de negação diante do fato que é um adulto mal resolvido. Ao dizer “eu admito, você tá na pista” o Eu Lírico lembra que é justamente assim que o interlocutor confirma a mesma verdade que está tentando negar. A frase final, “por que não” é a frase que a criança fala pra mãe quando é repreendida. “Por que não, mãe?” diz ela em meio às birras. A mãe se mantém firme e responde “Porque não!”. Isso remete à ideia da origem de todo o assunto tratado na música: a neurose causada pelo Complexo de Édipo mal resolvido.

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