Nossa Senhora Aparecida: A Deusa Mãe do Povo do Vale do Paraíba

A um observador externo o Vale do Paraíba parece um conjunto de religiosidade popular que se preservou. E é, de fato. Basta ir à imensa Basílica de Aparecida do Norte para ver a religiosidade. Longe de ser uma fé Romana ou Europeia, é em primeiro lugar Brasileira e em segundo lugar dedicada à Deusa Mãe. Igual as religiões antigas. O mistério que na antiguidade chamavam Vênus, Ishtar e Afrodite hoje chamam Nossa Senhora Aparecida. Em outras doutrinas do Brasil, também chamam Yemanjá.

A adoração à Deusa Mãe surgiu nas primeiras sociedades que sobreviviam pela agricultura. Elas enxergavam que a vida nascia do seio da terra e após a morte, voltava à terra. De lá, renascia pela fertilidade. Para essas sociedades toda a natureza era de imensa sacralidade. Os animais deviam ser cuidadosamente abatidos e temidos e havia rituais para cortá-los, cozê-los e devolver seus restos à terra. As árvores e plantas de cultivo eram um presente da Mãe e a colheita era celebrada com festejo. Dos antigos festivais da colheita restaram o que hoje os Cristãos chamam Páscoa (equinócio de primavera) e Natal (solstício de inverno), entre alguns outros.

O cristianismo reprimiu a imagem da Deusa Mãe na Europa porque os pagãos, povos conquistados pelos romanos cristãos, eram adoradores d’Ela. Impuseram a figura de Deus Pai: não mais um Deus da terra e da fertilidade, mas um Deus supremo e separado da natureza (sendo que a natureza se tornou pecado).  Para os cristãos o homem é superior à natureza e todas as coisas estão a seu serviço.

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra.” (Gêneses 1,26)

Com isso a natureza deixou de ser sagrada. Os animais eram cultivados para abate, caçados por prazer e extintos por pura farra. Pode-se citar a caça aos búfalos do Oeste dos EUA, a cruel extinção do dodô, a caça aos elefantes africanos na colônia inglesa (que dura até hoje), entre muitos outros.

Essa religião cristã de predatorismo veio à Capitania de São Vicente. Estava na bagagem dos cristãos que começaram a minúscula Vila de São Paulo e a vila de São José, entre outras localidades. Acontece que ao chegarem nas margens do Parahyba do Sul foi necessário resgatar aquele amor profundo à terra que os Europeus já estavam perdendo. Claro que os índios nativos e os negros da África ajudaram muito nesse resgate: eles vinham de civilizações que se construíram ao redor da Deusa Mãe. Os negros Yorubá têm suas Deusas, por exemplo a Senhora do Mar, Yemanjá. Os índios, segundo alguns estudiosos de nheengatu, têm sua Deusa na figura do sol, Guaracy, e da lua, Yacy.

E quanto aos católicos? A imagem oficial de Nossa Senhora, nos primeiros tempos do Brasil, era da mãe de Deus, mãe-virgem e mãe de todas as pessoas. Entretanto o Vaticano não permitia que a imagem de Maria fosse adorada no mesmo patamar que Deus Pai. Até hoje os católicos fazem questão de dizer que Maria não é adorada, é venerada. Apesar disso, na prática as pessoas adoram Maria. Oferecem a ela sua devoção, pedem milagres. Isso acontece muito na América Latina, no Brasil e no Vale do Paraíba.

Nossa Senhora Aparecida era uma pequena estátua que foi pescada no Rio Parahyba. Tornou-se bem mais do que uma figura secundária aos pés de Deus Pai e Jesus Cristo: virou uma Deusa Mãe, guardiã dos Tropeiros, guardiã dos Caipiras, posteriormente guardiã do Brasil. Infelizmente o que nós vemos hoje é que a adoração da Deusa Mãe Nossa Senhora Aparecida está sendo enfrentada pelos católicos mais ortodoxos. Acham melhor que ela seja venerada.

O mundo precisa de uma Deusa Mãe. Tem que abandonar a ideia de superioridade diante da natureza e se perceber parte dela. Essa necessidade pela Deusa é visível nas milhões de pessoas que vão até a cidade de Aparecida do Norte todos os dias para adorar a Deusa Virgem Maria, mãe de Deus, que apareceu no Rio Parahyba do Sul.

Sem a Mãe Terra o homem faz coisas como: A poluição no Rio Paraíba do Sul; os abatedouros clandestinos degradantes (e outros não tão clandestinos) que transformam o animal, fruto da terra, em um simples produto para o mercado; extinção de bichos que só existiam aqui e em mais nenhum lugar do mundo, e muitas outras barbáries. O homem se torna não um animal – animais respeitam a vida – mas se torna um Monstro. A aberração da natureza, a Deformidade.

***
 
 
 Licença Creative Commons
Nossa Senhora Aparecida: A Deusa Mãe do Povo do Vale do Paraíba de Matheus Santiago é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 3.0 Não Adaptada.
Baseado no trabalho em https://mattsantiago.wordpress.com/2013/10/10/nossa-senhora-aparecida-a-deusa-mae-do-vale-do-paraiba/.
Anúncios